Vargas era seu nome de guerra

Nunca passei frio, dizia. Também pudera, nasceu em Sereno de Cataguases, Estado de Minas Gerais, em 28 de março de 1943. Daí sua coragem. Tanta coragem, que em 26 de maio de 1997, resolveu fazer uma longa viagem. Só avisou pros parentes e amigos mais chegados.

Sempre gostou de aprender, saber das coisas e devolvê-las ampliadas e aprimoradas pra todo mundo. Talvez, secretamente, quis rever os amigos de longa data. Não disse para onde ia, nem quando voltaria. Só sei que foi explorar outro mundo e de vez em quando vai nos mandar notícias. Contar suas histórias, indicar rumos, traçar planos, esbanjar sabedoria, alegria, humildade e amizade. O que sempre soube fazer bem. Aguardem. Enquanto isso, recordemos com alegria o seu passado. Estudou em Sereno, onde iniciou o seu curso primário, para concluí-lo em Mirai, Minas Gerais, onde também fez o ginásio. Aos 14 anos, em 1957, rumou para Manaus - AM, na companhia de sua irmã Terezinha e do cunhado Ernani ( autor dessas reminiscência), seus segundos pais, como gostava de dizer.

Naquela cidade fez o primeiro ano científico, e iniciou, com voracidade, o gosto pela leitura, trazido das Gerais. Devorou tudo que a bibliotecas públicas de Manaus tinham e mais o que lhe caía nas mãos, emprestados pelo cunhado, colegas e amigos ali feitos. Sem saber ( ou sabia? ) foi o inventor da leitura dinâmica, tão elogiada na década de 60 por Kennedy.

De novo acompanhado da irmã e do cunhado que se mudaram para o Rio de Janeiro em 1958, matriculou-se no Instituto Lafayette, onde em 1960 concluiu com brilhantismo o seu curso colegial. Nesse período freqüentou muito o Mosteiro de São Bento, fazendo-se amigo de Dom Columba, seu conselheiro. Continuava lendo muito. Espírito irrequieto, indagador, místico e, talvez pelas conversas tidas com Dom Columba, admitiu-se atraído pelas vocaçoes sacerdotais. Graças a influências de jovens amigos padres Élcio e Juarez, foi preparar-se para ingressar no seminário de Gaxupé - MG, com o padre Mauro, que iria tornar-se seu grande amigo e admirador na pequena cidade de Laranjal, na zona da mata mineira. Nessa cidade sua cultura, suas habilidades artísticas de pintura e seu entusiasmo festeiro marcou época em fins de 1960.

Logo depois, ingressou no seminário, mas logo seu espírito rebelde e contrário das orientações que recebia, em um período de dúvidas, ficou em uma encruzilhada: continuar ou não a carreira para o sacerdócio.

De repente deixou o seminário e voltou novamente para a casa de seus "pais adotivos" no Rio de Janeiro. Agora precisava trabalhar, ganhar dinheiro, manter-se por conta própria. Após teste, empregou-se nos escritórios de FURNAS no Rio. Daí passou à editora de listas de páginas amarelas. Deixou a casa da irmã, indo morar na Avenida Augusto Severo, na Lapa. Passado algum tempo foi convidado e transferiu-se para a Laborterápica Bristol, em São Paulo, iniciando aí sua brilhante carreira na área de Recursos Humanos. Logo depois passou para a COMGÁS. A seguir, aceitou convite para dirigir o departamento de Recursos Humanos da Fepasa, com sede em Bauru. Sua permanência naquela cidade paulista foi-lhe duplamente benéfica: primeiro, iniciou e concluiu ali o seu curso de Psicologia, segundo, formou-se como renomado diretor de recursos Humanos da ferrovia paulista. Pouco de pois volta a São Paulo para trabalhar na matriz do Banco Auxiliar.

Nesse tempo, já começa a amadurecer em sua privilegiada cabeça, a idéia de criar a sua Interpessoal, empresa de consultoria de recursos humanos, criada em 1991, destinada a melhorar a relação empregador-empregado,mudando a postura, a atitude do homem perante a vida. Quando concretizou a sua idéia, Vargas criou o que chamou de "Laboratório Atitudinal" verdadeira revolução no processo educacional, que pretendia "não ensinar isto ou aquilo ou gerente ou executivo, o que buscava é leva-los a repensar algumas coisas e,a partir disso, assumirem uma atitude diferenciada em relação às pessoas e principalmente, a si mesmos". Assim ele pensava. Prosseguiu, aprimorou e atingiu este objetivo, até a véspera de sua última viagem ao Rio. Em quase sete anos de vida, a Interpessoal de Vargas tornou-se uma referência constante na área de recursos humanos do Estado de São Paulo e estava se espalhando para diversos estados brasileiros. Mas o sonho acalantado por Vargas seria construir no sítio Casa dos Vargas, que possuía no município de São Roque, em São Paulo, um centro de Estudos, o seu verdadeiro " Laboratório Atitudinal", para, de forma descontraída trocar idéias e experiências com seus alunos e amigos.

O plano começou a amadurecer com a construção de um excelente auditório para 30 alunos; mais 3 chalés para hospedagem e um aconchegante prédio - verdadeira fazenda no melhor estilo mineiro - para servir como restaurante, alem de uma capela, dedicada a Nossa Senhora Aparecida para abençoar a todos que ali vão. Tudo isso em pleno funcionamento desde 1995 e que é considerado seu recanto de paz e tranqüilidade para seus alunos e amigos, que com ele conviviam. Acrescente a tudo isso uma exuberante área verde, cheia de árvores frutíferas e ornamentais alem de lagos e ponte. Um sonho.

Este centro está sendo tocado pelo seu filho Gerson de Souza Vargas Pita e pela nora Magali, com todo gosto e empenho, a fim de perpetuar a Memória de Vargas que, sem dúvida, se orgulhará do esforço e dedicação dos seus pósteros.

Finalmente, o Vargas manda dizer que se encantou, virou estrela, estrela de primeira grandeza, para ver a todos e para que todos possam vê-lo.

 

                                                       Ernani Ferreira
                                           Rio de Janeiro, 04 de agosto de 1997

 

 

 

HOMENAGEM